Embora seja frequentemente associado a lábios volumosos, maçãs do rosto muito marcadas ou mandíbulas desenhadas, o preenchimento pode ser utilizado de maneiras bastante diferentes. Em alguns casos, o objetivo é devolver discretamente um volume perdido. Em outros, melhorar uma proporção, suavizar uma transição ou oferecer suporte a uma região que se modificou com o envelhecimento.
Um bom resultado não deveria fazer com que as pessoas percebessem primeiro o procedimento.
A intenção é que o rosto pareça mais equilibrado, descansado e coerente com as características de quem o carrega — sem que todas as pessoas terminem com os mesmos contornos.
Por isso, o preenchimento não começa pela escolha do produto ou pela quantidade de seringas. Começa pela consulta médica e pela compreensão do que realmente está causando a queixa.
O que é um preenchedor facial?
Preenchedores são produtos injetáveis utilizados para modificar volume, contorno ou suporte em determinadas regiões.
Existem diferentes materiais. Entre eles estão o ácido hialurônico, a hidroxiapatita de cálcio, o ácido poli-L-láctico e materiais permanentes, como o PMMA. Eles não possuem o mesmo comportamento, as mesmas indicações ou a mesma duração.
No Brasil, esses produtos são classificados pela Anvisa como dispositivos médicos implantáveis de alto ou máximo risco sanitário. Por isso, precisam ter registro e ser produzidos por fabricantes devidamente regularizados. Não se trata de um cosmético ou de um produto de uso superficial.
Neste artigo, falo principalmente sobre os preenchedores de ácido hialurônico, muito utilizados nos tratamentos faciais.
O ácido hialurônico está presente naturalmente no organismo, mas os produtos injetáveis passam por processos específicos de fabricação para adquirir características adequadas ao preenchimento.
Mesmo entre os preenchedores de ácido hialurônico, existem diferenças importantes. Alguns são mais suaves e flexíveis; outros possuem maior capacidade de sustentação. A escolha depende da região, da profundidade, do tipo de tecido e do efeito que se pretende alcançar.
O mesmo produto não é adequado para todas as áreas do rosto.
O preenchimento não trata apenas rugas
O preenchimento pode ser indicado para diferentes objetivos, como:
- Melhorar o contorno e a proporção dos lábios.
- Oferecer suporte ao queixo em casos selecionados.
- Suavizar sulcos e transições.
- Repor discretamente volumes que se modificaram com o envelhecimento.
- Melhorar o suporte da região malar.
- Tratar determinadas cicatrizes deprimidas.
- Equilibrar algumas assimetrias.
- Refinar contornos faciais quando existe indicação anatômica.
Isso não significa que todas essas regiões devam ser tratadas na mesma pessoa.
Também não significa que exista uma sequência obrigatória de procedimentos chamada “harmonização”. Um plano pode envolver apenas uma pequena correção ou ser realizado progressivamente, com intervalos para que o resultado seja reavaliado.
O resultado depende da estrutura dos tecidos, da região tratada, do material escolhido e da quantidade aplicada.
Preencher não é sempre acrescentar volume onde existe um sulco
Uma das ideias mais importantes para entender esse tratamento é que nem toda depressão deve ser preenchida diretamente.
Um sulco ao lado da boca, por exemplo, pode estar relacionado à anatomia natural, à movimentação, à perda de suporte em outras regiões ou à descida dos tecidos. Simplesmente colocar produto dentro da linha nem sempre produz o resultado mais natural.
O mesmo vale para as olheiras.
A aparência escurecida abaixo dos olhos pode ter relação com pigmentação, vasos aparentes, flacidez, bolsas, perda de volume ou com o formato do osso. O preenchimento pode ajudar em casos selecionados, mas também pode deixar a região mais pesada quando não existe uma boa indicação.
Antes de tratar o local onde você enxerga a queixa, é preciso compreender de onde ela vem.
O que esperar da consulta
Mais do que uma avaliação estética, essa é uma consulta médica.
Durante o atendimento, vou ouvir o que incomoda você e examinar o rosto como um conjunto. A região apontada no espelho é importante, mas não é analisada isoladamente.
O seu rosto será avaliado em repouso e em movimento
Sorrir, falar e movimentar a musculatura modifica os contornos da face.
Uma região pode parecer adequada em repouso e se comportar de maneira diferente durante o sorriso. Por isso, fotografias estáticas ou filtros de redes sociais não são suficientes para definir um tratamento.
As proporções serão consideradas
Um queixo aparentemente pequeno, por exemplo, precisa ser analisado em relação aos lábios, ao nariz, à mandíbula e ao perfil completo.
Tratar uma região sem observar as demais pode criar uma nova desproporção, mesmo quando o procedimento daquela área foi tecnicamente bem executado.
Vamos identificar o que já foi feito
É essencial que você conte sobre procedimentos anteriores, mesmo que tenham sido realizados há bastante tempo ou que não se lembre do nome do produto.
Diferentes materiais podem permanecer nos tecidos por períodos variados. Aplicar um novo produto sem saber o que já existe naquela região aumenta a incerteza do planejamento.
Quando possível, leve fotografias, notas, embalagens ou qualquer informação recebida na aplicação anterior.
O resultado desejado será discutido
Quero entender não apenas qual região você deseja tratar, mas o que espera perceber depois.
Você quer um lábio mais definido ou realmente mais volumoso? Deseja melhorar o perfil ou está incomodada apenas com uma fotografia específica? Procura uma mudança visível ou um resultado que quase ninguém perceba?
Essas diferenças modificam o planejamento.
Também explicarei quando o preenchimento não for a melhor ferramenta para a sua queixa. Flacidez, manchas, alterações de textura e perda de qualidade da pele podem exigir tratamentos diferentes.
Naturalidade não depende apenas da quantidade
Costuma-se dizer que um preenchimento natural é aquele feito com pouco produto. Isso é apenas parte da questão.
Uma quantidade pequena colocada no local errado pode gerar um resultado artificial. Da mesma forma, uma quantidade maior, distribuída de maneira adequada e utilizada para uma necessidade real, pode permanecer discreta.
Naturalidade depende de:
- Diagnóstico correto.
- Escolha apropriada do produto.
- Conhecimento da anatomia.
- Profundidade e localização da aplicação.
- Respeito às proporções.
- Quantidade compatível com os tecidos.
- Planejamento progressivo.
O excesso também pode surgir aos poucos.
Aplicações repetidas, realizadas sem reavaliar o que ainda permanece nos tecidos, podem levar ao acúmulo de volume. Por isso, a manutenção não deveria ser determinada apenas pelo tempo desde a última sessão.
Antes de acrescentar produto, é preciso examinar se ainda existe indicação.
Como é feita a aplicação?
Depois da avaliação e do planejamento, o produto é aplicado com agulha ou cânula, dependendo da região, do objetivo e da técnica escolhida.
Alguns preenchedores contêm anestésico em sua formulação. Em outras situações, podem ser utilizadas medidas adicionais para tornar a aplicação mais confortável.
O procedimento costuma ser realizado no consultório. Logo depois, é possível haver:
- Inchaço.
- Sensibilidade.
- Vermelhidão.
- Pequenos hematomas.
- Assimetria temporária causada pelo edema.
Esses efeitos geralmente melhoram ao longo dos dias, embora a intensidade varie conforme a região e a resposta individual. Lábios, por exemplo, podem apresentar um inchaço mais evidente nos primeiros dias.
Por isso, o resultado não deve ser avaliado apenas imediatamente após a aplicação.
Também podem ocorrer, com menor frequência, inflamações, infecções, nódulos ou alterações no contorno. A avaliação e o acompanhamento médico fazem parte do tratamento.
Quanto tempo o resultado dura?
Não existe uma duração única para todos os preenchimentos.
O tempo de permanência varia de acordo com:
- Material utilizado.
- Características do produto.
- Região tratada.
- Profundidade da aplicação.
- Quantidade.
- Movimentação local.
- Características individuais.
- Presença de produtos aplicados anteriormente.
Alguns preenchedores são absorvidos progressivamente, enquanto outros permanecem nos tecidos por períodos mais prolongados.
Mesmo quando se utiliza ácido hialurônico, não é adequado pensar que o procedimento pode ser simplesmente “desfeito” sem uma nova avaliação.
Em situações específicas, a hialuronidase pode ser utilizada para degradar o ácido hialurônico. No entanto, sua utilização também exige indicação médica e conhecimento técnico.
A possibilidade de reduzir o produto não substitui a necessidade de uma indicação correta desde o início.
Os riscos precisam ser conhecidos
Preenchimento facial é um procedimento médico invasivo e não é isento de riscos.
Além do inchaço, dos hematomas e da sensibilidade, podem ocorrer assimetrias, infecção, nódulos, reações inflamatórias e alterações do contorno.
A complicação mais preocupante é a oclusão vascular, que acontece quando o produto compromete a circulação sanguínea de uma região.
Embora seja incomum, ela pode causar sofrimento da pele, necrose e alterações visuais se não for reconhecida e tratada a tempo.
Por isso, não basta apenas saber aplicar o produto. É necessário conhecer profundamente a anatomia, reconhecer rapidamente os sinais de uma intercorrência e saber como conduzir o tratamento.
Nos preenchimentos com ácido hialurônico, a disponibilidade imediata de hialuronidase é uma parte essencial da segurança. Quando existe uma oclusão vascular, o atraso no reconhecimento ou a ausência do tratamento adequado pode permitir a progressão para necrose, deixando cicatrizes permanentes.
Produto regularizado, procedência conhecida, técnica, anatomia e preparo para manejar complicações fazem parte do mesmo procedimento.
Informações que você deve contar antes do tratamento
Antes da aplicação, conte se você apresenta:
- Infecção, inflamação, ferida ou acne ativa na região.
- Alergias importantes ou histórico de anafilaxia.
- Doenças autoimunes ou outras condições em atividade.
- Alterações de coagulação.
- Uso de anticoagulantes ou outros medicamentos.
- Gestação ou amamentação.
- Procedimentos odontológicos recentes ou programados.
- Preenchedores, fios, cirurgias ou implantes anteriores.
- Reações adversas a tratamentos prévios.
Essa conversa não é apenas uma formalidade. Ela permite avaliar se o tratamento pode ser feito naquele momento e se algum cuidado adicional será necessário.
A minha abordagem
Não considero o preenchimento uma forma de construir um rosto novo.
Meu objetivo é compreender quais estruturas estão relacionadas à sua queixa e avaliar se a adição de volume realmente pode ajudar.
Quando existe indicação, prefiro um planejamento proporcional e progressivo. Após cada etapa, observo como o produto se integrou aos tecidos antes de decidir se é necessário continuar.
Não trabalho com uma quantidade fixa de seringas definida apenas pela região nem com formatos padronizados de lábios, queixos ou mandíbulas.
Algumas pessoas precisam de suporte. Outras, de uma pequena correção de proporção. E existem situações em que acrescentar volume apenas deixaria o rosto mais pesado.
Nesses casos, vou explicar por que outro tratamento pode ser mais adequado.
A melhor aplicação não é aquela que utiliza mais produto. É aquela em que existe uma razão clara para cada quantidade aplicada.